Cultura Vareira

Cultura Vareira

"É de Espinho, viva” 

De "rosto curtido pelo sol e pelo mar e rugas de anos a puxar o remo", o vareiro ou pescador era o mais importante sustento da família. 

Homem de crenças — muito por força de uma vida no mar sujeito a perigos vários. Prezava-se de ser honrado e de ter palavra. 

Homem do mar por excelência, o pescador desempenhava várias funções no mundo do trabalho, muitas delas decorrentes dos seus vastos conhecimentos técnicos, o que lhe permitia manobrar uma panóplia de aparelhos ligados à faina. 

Era a partir do conhecimento empírico da Natureza que se tomavam as importantes decisões de ir ou não ir ao mar, pois acima dos ansiosos resultados económicos da safra estava a segurança das tripulações. 

Fora do período do verão, a prática da pesca estava fortemente condicionada pelo estado do tempo e da ondulação. No entanto, tomada a decisão de ir para o mar, todo o Bairro Piscatório entrava em alvoroço e, num curto espaço de tempo, reuniam-se todos os tripulantes, aparelhavam-se os barcos das companhas e partia-se para o mar. 

As mulheres, as vareiras, em tempos de safra abundante tinham na venda do peixe a principal atividade profissional.  

Durante o sol de inverno, e quando não havia trabalho no mar, podíamos encontrar as vareiras sentadas ao "soalheiro” — ou na areia da praia com os filhos, ou junto às suas casas, em amena conversa. 

Os pregões — desde logo "D´Espinho viva”, um dos mais conhecidos — e o andar ondulante são traços singulares da mulher vareira. A  sua beleza inspirou escultores e artistas plásticos, que a transportavam para revistas e postais ilustrados. 

Era ainda em criança que todo o pescador iniciava o trabalho na faina do mar, inicialmente com trabalhos que exigiam menor esforço. A partir da Revolução de abril de 1974, o estatuto deste grupo social foi-se alterando. Aumentaram as habilitações escolares, profissionais e académicas do agregado familiar e, hoje em dia, são poucos os que fazem da pesca uma profissão. 

De acordo com Fernanda Miguel, os pescadores mais antigos vestiam calça de flanela, camisa de padrão escocês, cinto preto ou vermelho, barrete ou calça de sorrobeco, camisa e boina. As alterações impostas pela moda levaram ao desuso das calças de flanela e à sua substituição por calças de fazenda grossa. Atualmente, muitos pescadores vestem calças de fazenda ou de ganga e camisa axadrezada. Tal como as vareiras, também eles andavam quase sempre descalços. Os que tinham mais possibilidades financeiras "calçavam sapatos ou botas de meio cano, camisa de colarinho engomada, fato ou capa alentejana. Em dias de festa usavam anéis e corrente de outro com peça, "memória” ou relógio de bolso. 

Quanto às vareiras, vestiam "saia arregaçada por cinto vermelho ou preto donde espreitava "saioto” vermelho com recorte a retrós amarelo, azul ou lilás e "guarda-lamas” branco com rendas ou bordados ingleses. E completavam o traje com lenço, chapeuzinho e rodilha para canastra. Nos dias de festa, algumas calçavam chinelas de verniz preto e punham paletó e saia de caxemira às ramagens ou bordada a tricotine e, na cabeça lenço de merino. O seu maior brio era os brincos de libra, o cordão e a peça de ouro. As mais fidalgas já usavam adereços de brincos e alfinetes iguais, como as "senhoras”. 

Hoje em dia, no seu quotidiano, a vareira utiliza sempre um avental rendado, um lenço sobre o peito — ou na cabeça — e de chinelos. Em dias festivos, usa trajes mais coloridos, de tecidos finos, onde se salientam bonitos aventais, lenços e camisas.    
Cadernos de Espinho — É do nosso mar — A tradição da Arte Xávega